O treinador Paulo Pereira, do Óquei Barcelos, ficou frustrado por ter sido infetado com a COVID-19 no final de março, num sentimento agudizado por 20 dias de isolamento, que impediram contágios com a esposa e os filhos.

“Se ter de ficar em casa já era chato, ficar confinado a um quarto sem contacto com a família deixa-nos revoltados. Perguntamo-nos por que é que o vírus nos atacou, mas ele tinha muito por onde se alojar nesta casa e ainda bem que me escolheu. Tinha algumas reservas para poder aguentá-lo e não queria que nada acontecesse aos miúdos”, contou à agência Lusa o técnico dos minhotos, um dos 7.705 recuperados em Portugal.

Paulo Pereira, de 51 anos, sentiu “um pico de febre” em 28 de março, alguns dias após o filho mais novo ter atravessado uma pneumonia e acusado negativo ao novo coronavírus, panorama que despertou a marcação de testes para si e para o outro filho em 02 de abril, no centro de rastreios instalado no pavilhão de Feiras e Exposições de Penafiel.

“Não tinha tosse, mas assim que registei 37,6 graus de febre isolei-me e nunca mais saí do quarto. Fiz o teste, recebi o resultado três dias depois e fui o único a dar positivo. Não faço a mínima ideia onde posso ter apanhado o vírus e é por isso que ele é esquisito, porque estivemos os quatro a conviver na mesma casa”, observou.

Aproveitando as recomendações da mulher que é enfermeira, mas sem tomar qualquer medicamento, o treinador beneficiou da “felicidade” de habitar numa casa com dois pisos para evitar contactos com a restante família, com quem fomentou uma comunicação à distância, amparada pelo telemóvel e apenas atenuada nos momentos das refeições.

“Eles usavam a casa de banho do andar de baixo e eu tinha uma só para mim cá em cima. Deixavam-me as refeições à porta do quarto e, no final, levava o tabuleiro até lá, sem haver hipótese de nos cruzarmos. Tive algumas dores musculares e perdi o olfato, mas não o paladar, pelo que passei estes 20 dias sentado a engordar e a dormir”, gracejou.

Manifestando como “principal receio” a perceção de “mazelas nos pulmões e muitas dificuldades respiratórias”, Paulo Pereira procurava, “assim que acordava”, confirmar a eficácia das trocas gasosas entre o organismo e o meio exterior com “breves exercícios” de inalação e expiração, tendo avistado “alguma liberdade” na segunda quinzena de abril.

“Os resultados vinham normalmente por ‘email’. No dia 17, fiz um teste e fiquei satisfeito. Dois dias depois, fui ao exame complementar e pensava que tinha de voltar a ficar confinado se desse positivo. A partir do momento em que acusei negativo em tudo, saiu um grande peso de mim e poder estar com a minha família foi cinco estrelas”, admitiu.

O isolamento passado em Valongo levou Paulo Pereira a rever diversos jogos realizados durante a temporada, investir tempo na literatura sobre desporto ou seguir algumas séries televisivas, enquanto partilhava “problemas e sorrisos” com a estrutura do Óquei Barcelos e acompanhava os treinos caseiros dos jogadores através das plataformas digitais.

“Nos primeiros dias, ainda vai dando, mas depois começa a existir aquela saturação de estar em casa sempre a fazer a mesma coisa. Tentava estar acordado muito tempo durante a noite, para que tivesse mais sono durante o dia e o tempo passasse mais rápido”, detalhou o treinador campeão nacional pelos valonguenses em 2013/14.

O desconfinamento devolveu Paulo Pereira às caminhadas e ‘bicicletadas’, que “decorrem como antigamente, sem sintomas nem complicações respiratórias”, antecedendo a mudança para Oliveira de Azeméis, no seguimento de uma época cancelada pela Federação de Patinagem de Portugal em 29 de abril, sem títulos, mas com subidas e descidas.

“Como é que posso estar dois meses parado e puxar agora os meus jogadores ao máximo para a reta final do campeonato? Não consigo. Alguns pavilhões fizeram de hospital de campanha e certamente houve jogadores a perder familiares com este vírus e outros psicologicamente afetados. Não havia condições e acabar tudo foi o ideal”, frisou.

Para trás ficou uma “caminhada promissora” no quarto e último ano ao leme do Óquei Barcelos, assente no quinto posto no campeonato, com 37 pontos, menos 12 que o líder Benfica, e na chegada aos oitavos de final da Taça de Portugal e aos ‘quartos’ da Taça da Europa, três frentes interrompidas pela pandemia de COVID-19 em meados de março.

“Gostava de me ter despedido dentro de pista e da forma como entrei naquele clube, com a conquista de uma Taça da Europa. Fui muito bem acolhido e estávamos todos muito focados nessa conquista, mas tivemos uma despedida muito fria. O contacto com as pessoas deu-se ao longe e, infelizmente, não podia ter sido de outra forma”, lamentou.

Inquieto com o futuro do hóquei em patins luso, ao notar “um revés económico muito grande e equipas a cortar nos orçamentos”, Paulo Pereira continuará a orientar a condição física do plantel minhoto até 30 de junho, altura em que abraçará o comando técnico do vice-campeão nacional e atual detentor da prova ‘rainha’, que representou nos rinques.

“Até lá continuamos a falar uns com os outros e a enviar os planos de treino, porque será muito prejudicial se os atletas pararem até setembro. Independentemente do clube, compete à equipa técnica dar essa ajuda. Quando os encontrar mais à frente, pode ser que me despeça de outra maneira e lhes dê o abraço que merecem”, afiançou.

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