Quando os principais emblemas europeus estão de férias ou no início de uma nova época, a Gronelândia está a preparar a sua rápida e vibrante época futebolística. Dura uma semana. Primeiro, é preciso escolher a melhor altura. Entre meados de junho e finais de agosto, quando os gigantes blocos de gelo que cobrem a maior parte do território  e a neve dão tréguas, a federação local tem de decidir qual a melhor semana para um campeonato jogado a velocidade supersónica, num país onde quase tudo é feito devagar. Desde 1958 que é assim.

O Grønlandsbanken Final 6 é disputado durante uma semana, num país onde 10 por cento da população joga futebol. Todos os anos, no verão, seis equipas disputam o título durante uma semana, com jogos sem parar, num só estádio. Antes, é realizado uma espécie de qualificação regional para se determinar o representante na fase final. Este é o único campeonato de futebol no Círculo Polar Ártico.

Por aqui, o futebol é rei mas coloca-lo no 'trono' é um desafio enorme. O país é gigante, tão gigante como os territórios de Alemanha, França, Espanha, Itália, Áustria, Suíça e Bélgica juntos, mas apenas 20 por cento da terra é habitável, o que faz da Gronelândia o território com menos densidade populacional do Mundo.

Além do vasto território, a imprevisibilidade do tempo, mesmo no verão, torna este campeonato num gigantesco desafio logístico, já que é preciso transportar as comitivas para a região-sede da prova, todos os anos. A maior parte das viagens são feitas de barco. O mesmo navio vai de porto em porto, recolhendo as comitivas, em viagens que podem durar três dias.

Este é um campeonato repleto de curiosidades. Os nomes das equipas são uma letra e dois números (o nome da região/cidade/vila e o ano da criação do clube). A prova de 2019 foi disputada num relvado sintético, num estádio cravado entre montanhas de quase 800 metros de altura, na cordilheira de Nasaasaaq, em Sisimiut. Quase todos os cinco mil habitantes da região lotaram as montanhas que circundam o estádio, cada um no melhor local para ver de perto a melhor atração do ano.

A paixão pelo futebol levou a federação de futebol da Gronelândia a pedir a sua afiliação na FIFA mas o facto de ser um território político da Dinamarca, como as Ilhas Faroé, terá levado o organismo a rejeitar. A seleção local já chegou a disputar a CONIFA (Mundial de Futebol das nações, dependências, estados não reconhecidos, minorias, povos sem estado, regiões e pequenas nações não filiadas na FIFA, que estava para ter lugar na Macedónia do Norte, de 30 de maio a 7 de junho de 2020).

Dos pelados que partiam ossos para a relva sintética

Durante dias, os jogadores viajam dos quatro cantos da gigantesca ilha para o local da prova. Os olhos dos 56 mil habitantes estão concentrados na televisão estatal da ilha para uma semana de futebol sem parar.

Um dos campos de futebol de Nuuk, antes de receber um relvado artificial
Um dos campos de futebol de Nuuk, antes de receber um relvado artificial créditos: DR

Para os jogadores, é um sacrifício enorme mas que vale a pena. Chegam a andar três dias ou mais de barco até chegar ao destino dos jogos. Pagam tudo do seu bolso: equipamentos, tratamentos, viagens, alimentação. Tudo muito caro. Dormem quase todos em pequenos colchões, no chão de pavilhões desportivos ou ginásios. Companheiros e adversários, todos no mesmo espaço.

Até 2016, a prova era jogada em pelados, cheios de pó e pedras. Muitos jogadores lesionavam-se nas quedas. Hematomas, cortes, até ossos partidos eram frequentes.

"Às vezes havia muita poeira no campo. Então tínhamos de deitar água no terreno durante o jogo para fazer baixar o pó. Era difícil jogar, nunca tínhamos a certeza onde a bola ia cair ou se o passe iria na direção certa", conta Patrick Frederiksen, jogador do B-67, de Nuuk, à CNN.

Se para um jogador de campo era difícil, para um guarda-redes, era bem pior.

"Era preciso ser muito corajoso para ser guarda-redes nestes campos. Tínhamos de jogar com várias camadas de roupa e mesmo assim terminávamos os jogos com cortes e hematomas", lembrou Johan Frederik Zeeb, ex-capitão do B-67 Nuuk.

Em 2017, a União dos Desportos com Bola da Gronelândia fez um acordo com a Federação Dinamarquesa de Futebol, com a última a ficar com a responsabilidade de ajudar na colocação de relvados sintéticos nos campos do país.

"O plano era construir seis campos de relva artificial até 2021, mas já estamos com 11 ou 12. Tem sido um grande sucesso. É uma longa jornada, mas já a começamos. O futuro do futebol na Gronelândia é brilhante!", frisou o presidente da Federação Dinamarquesa, Jesper Møller, citado pela CNN.

Desafiar a China e a exportação de camarões: amigável com Tibete ia causando incidente diplomático

Durante o ano, a maior parte dos jogadores jogam desportos de pavilhão como andebol e futsal. Por isso, não se admira que, quando sobem ao sintético, exibem uma técnica assinalável, explica uma reportagem do 'The New York Times'.

As equipas fazem captações, os jogadores escolhidos tem de pagar 75 dólares pela inscrição. Antes dos torneios regionais em julho, fazem alguns treinos. Junho, julho e agosto são meses de futebol ao ar livre.

Em 2001, o futebol da Gronelândia atingiu o seu pico internacional, mas não pelos melhores motivos. Michael Nybrandt, um jovem dinamarquês, perguntou à GBU (Federação de Futebol da Gronelândia), se estaria interessado em realizar um jogo amigável com a seleção do Tibete. Seleção essa não formada por jogadores do território do Tibete, mas sim atletas com ascendência tibetana. O jogo foi marcado para ter lugar em Copenhaga.

O convite era aliciante para a Gronelândia mas uma afronta para a China, país que mantém domínio político sobre o Tibete e que é o destino de quase toda a exportação de camarões da gigantesca ilha: o gigante país asiático ameaçou, com um embargo, todas as exportações de camarões da ilha se o jogo não fosse cancelado.

O governo da Gronelândia colocou a decisão nas mãos da federação, que foi adiante com o jogo. O encontro teve lugar no Vanlose Arena, em Copenhaga, com a Gronelândia a vencer por 4-1. Apesar das ameaças, a exportação de camarões da ilha para China não teve contratempos.

O imparável B-67 afinal não é imbatível

Aqui, reina o B-67, vencedor de oito das últimas dez edições da prova e que detém 13 títulos de campeão. É a equipa que atrai os melhores jogadores, os patrocinadores mais generosos, que fica com as melhores acomodações. "São os mais profissionais", conta Hans Brummerstedt ao 'The New York Times'. Brummerstedt jogou sete épocas no emblema mais titulado da região, antes de se mudar para outra equipa de Nuuk, a capital da Gronelândia.

Futebol na Gronelândia
Futebol na Gronelândia créditos: Red Bull

Na edição de 2019, o B-67 esteve quase a não conseguir defender o título. Um intenso nevoeiro caiu sobre a localidade de Sisimiut, onde decorreu o campeonato, em agosto. Sem visibilidade, o avião que devia transportar a equipa não saiu de Nuuk. As restantes equipas e a federação local discutiram sobre qual a melhor opção: continuar à espera dos campeões ou fazer a prova sem eles. Poucas horas antes do início do torneio, um barco proveniente de Nuuk conseguiu transportar a equipa B-67 até Sisimiut. Agora sim, já se podia jogar. Faltava uma equipa de arbitragem que também de via ter chegado de Nuuk, pelo que a organização teve de improvisar.

De Nuuk veio o repórter Hans Frederik Olsen para comentar o torneio, conta o 'New York Times'. Para ele, é um sonho de criança mas também um desafio enorme: narrar três jogos num dia, das 15h às 21h, durante seis dias. O enorme nevoeiro também impediu a chegada de uma equipa de arbitragem. Kasper Bro Rasmussen, um fisioterapeuta dinamarquês que embarcou na aventura de se mudar para Gronelândia, teve de servir de árbitro principal. Num dos jogos das 17h, chegou ao campo de bicicleta, depois de ter terminado o seu turno no hospital local às 16h00. A seguir ao encontro, tomou outro lugar na missão de fazer cumprir as regras do jogo, mas agora como árbitro auxiliar.

A final de 2019 foi ganha pelo N-48 ou Nagdlunguaq-48, que assim ficou a dois títulos de igualar o B-67, de Nuuk.

Um dia antes da final, René Lennart Frederiksen, um dos organizadores, saiu com um amigo no seu barco para caçar focas. O nevoeiro baixou, já se podia ir ao mar. Frederiksen não caça por desporto mas sim para alimentar a família. Durante uma semana, não conseguiu tempo para a sua mulher e os seus três filhos. Prometeu recompensa-los quando a prova terminar.

René Lennart Frederiksen e os seus pares terão de esperar mais julho/agosto para poderem voltar a lutar pelo título.

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