Foi chegar, ver e vencer. Este provérbio português pode ser aplicado ao trabalho de Jorge Jesus no Flamengo. O técnico português é um dos nomes mais falados em terras de Vera Cruz e, por causa dele, nunca se falou tanto do Brasileirão em Portugal como agora.

JJ chegou ao Flamengo no dia 01 de junho de 2019. Fez a sua estreia em jogos oficiais frente ao Athletico Paranaense no dia 11 de julho [provas no Brasil estiveram paradas por causa da Copa América], em encontro da primeira-mão dos quartos-de-final da Copa do Brasil em futebol, num jogo que terminou empatado a uma bola.

A chegada do técnico ao Brasil para treinar um dos gigantes do futebol canarinho foi recebido com muita desconfiança por parte de comentadores e técnicos de futebol. Ver um estrangeiro a comandar o 'Mengão' não era propriamente a visão perfeita para muitos brasileiros mas a verdade é que o português começou a ter um grande impacto assim que chegou. No seu primeiro encontro em casa, no Maracanã, o Flamengo goleou o Goiás por 6-1. Um resultado que fez Jesus conquistar de imediato a exigente plateia do Mengão.

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Jesus chegou ao Flamengo, com a equipa no terceiro posto, a sete pontos do líder Palmeiras no Brasileirão. De lá para cá, perdeu apenas para o Bahia, por 3-0 e com o Emelec, por 2-0, na primeira-mão dos oitavos-de-final da Taça Libertadores. Empatou 1-1 com o Internacional (primeira-mão dos quartos-de-final da Taça Libertadores), e o mesmo resultado nas meias-finais da prova em casa do Grêmio, além de dois empates com São Paulo e Corinthians no Brasileirão. Passou de ter menos sete pontos para a liderança para ter dez de vantagem sobre o segundo (recuperou 17 pontos aom Palmeiras), colocou o Flamengo na final da Taça Libertadores, algo que não acontecia há 38 anos.

É nos jogos difíceis que o técnico tem conquistado o Brasil. Não somou qualquer derrota com os principais emblemas e chegou mesmo a golear o Grêmio e o Vasco da Gama. Apesar da qualidade do futebol apresentado, da liderança isolada com 10 pontos de vantagem, da excelente campanha na Libertadores, há quem teima em não dar os devidos créditos a Jorge e Jesus no Brasil. O último foi Rivaldo, antigo internacional brasileiro que brilhou no Barcelona. O antigo criativo elogiou o trabalho de Jesus no Flamengo mas não lhe atribui toda a responsabilidade no sucesso.

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"Sabemos que ele é um grande treinador. Mas eu sou da opinião que 90 por são os jogadores. A participação do treinador é 10 por cento. A organização, e sempre disse isso, desde que joguei futebol, 10 por do treinador, 90 dos jogadores", sublinhou o ex-internacional canarinho à 'Fox Sports'.

Ainda esta quarta-feira, Mano Menezes, treinador do Palmeiras juntou-se ao rol de técnicos brasileiros que não estão assim tão convencidos com o trabalho do técnico português.

"Talvez possa ser algo polémico, mas penso que, com estes jogadores, Abel Braga [técnico substituído por Jesus no Flamengo] também teria sucesso no Flamengo. Não posso dizer que o Abel seria o Jorge Jesus, mas o Abel, ao longo da história, nunca foi técnico que armasse uma equipa defensiva. Não há uma equipa dele que fosse extremamente defensiva", comentou.

Argel Fucks, antigo jogador do FC Porto e Benfica que está a treinar o CS Alagoano, foi o último treinador a perder para Jorge Jesus. Foi só 1-0, num jogo onde os atacantes do 'Mengão' deram um festival de falhanços e sofreram depois na defesa, onde foram salvos pelo guardião Diego Alves. No final do encontro, Argel não estava nada impressionado com o futebol de Jesus.

"Ninguém descobriu a pólvora no futebol. O Flamengo está a jogar o que a seleção de 70 jogava. O Flamengo tem hoje os melhores jogadores, tem estrutura, condições de trabalho e bons profissionais. Trabalhar lá é muito mais fácil. O Andrade foi campeão brasileiro pelo Flamengo. O Jayme [de Almeida] foi campeão da Copa do Brasil pelo Flamengo, quando o Flamengo era desorganizado, quando não tinha estrutura, quando não pagava. Imaginem como seria hoje, com toda esta estrutura...", sublinhou o treinador do CSA, citado pela imprensa brasileira.

"O Flamengo tem mérito, sim, mas não podemos desvalorizar o trabalho dos outros treinadores que estão aqui no Brasileirão, que é o mais difícil do mundo. E hoje o Flamengo sentiu isso, contra o CSA acabou o jogo com o coração na mão", completou.

Renato Gaúcho, conceituado treinador que comanda o Grêmio, também mostrou a sua desconfiança para com o português. Antes do jogo entre ambos, na primeira-mão da meia-final da Taça Libertadores, Gaúcho falou dos grandes jogadores que o Flamengo tem à sua disposição mas aproveitou para lançar uma 'farpa' a JJ. A resposta de Jesus veio na segunda-mão quando o Grêmio foi goleado pelo Flamengo por 5-0.

"Concordo que o Flamengo está a jogar o melhor futebol do Brasil em conjunto com o Grémio, mas o Jorge Jesus só ganhou dois ou três títulos em Portugal. Saiu de Portugal e foi para a Arábia Saudita. Ele nunca treinou fora de Portugal um grande clube na Europa. Nunca conquistou nada e está com 65 anos. Ele está com uma seleção nas mãos. É obrigado a fazer exatamente o que está fazer: colocar o Flamengo jogar bem. Vamos saber se ele tem capacidade, se é um grande treinador e sê-lo-á se ele ganhar títulos no final. Ou se o tirarmos do Flamengo ou Palmeiras e o colocarmos num outro clube do Brasil e der resultado", frisou, em em entrevista ao jornal 'Zero Hora'.

Quem também não está convencido com o trabalho e o futebol apresentado por Jorge Jesus é Cesar Sampaio, adjunto de Tite na seleção brasileira. Em entrevista ao 'Globoesporte', o treinador elogiou "futebol muito bonito, ofensivo" mas frisou que este não é o típico futebol brasileiro.

"Falando de Jorge Sampaoli e Jorge Jesus, na minha avaliação, acho que é um futebol muito bonito, ofensivo, mas não é o brasileiro. É um futebol desequilibrado. São equipas que, para construir, às vezes desestruturam o setor de meio de campo e o setor defensivo. Lógico que o Santos tem menos reposição [n.d.r. soluções], o Flamengo tem mais, tecnicamente os jogadores são melhores e a tendência é que isso prospere no Flamengo. Mas quando equiparam as forças, se não tiver jogo mais equilibrado, podem até perder com uma equipa até melhor tecnicamente", sentenciou.

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Thiago Nunes, treinador do Athletico Paranaense, foi o único a eliminar o Flamengo de Jesus de uma competição: foi na Taça do Brasil, nas grandes penalidades, depois de dois empates a uma bola.  O técnico não gostou de ouvir Jesus a criticar o relvado sintético da Arena da Baixada no jogo da primeira-mão (18 de julho de 2019) e deixou-lhe uma sugestão.

"Nunca colocamos nenhuma muleta em relação à nossa performance. Quando não vencemos fora, assumimos a nossa responsabilidade. Temos uma situação que chama a atenção, uma particularidade que é o relvado sintético. As pessoas usam muleta para justificar o seu trabalho, mas não fazemos nada fora da lei, está tudo dentro das regras do jogo [...] Ele é visitante no nosso país e poderia ajudar-nos na UEFA. Lá não somos aceites, aqui ele é... Fica a responsabilidade para o Jesus ajudar-nos a melhorar o nosso futebol. É um visitante no nosso país e pode auxiliar-nos a ter trabalhos fora, da mesma forma que nós o estamos a receber a ele aqui", atirou.

Jorge Jesus vai respondendo em campo, com vitórias e superioridade frente aos rivais. Lidera o Brasileirão com 67 pontos, mais dez que o Palmeiras. Está na final da Taça Libertadores onde vai decidir o título com os argentinos do River Plate. As contratações dos reforços Rafinha, Filipe Luís, Pablo Marí e Gerson, jogadores que passaram a titulares com Jesus, ajudaram o técnico a alcançar os resultados que tem vindo a evidenciar.

Se vencer o Brasileirão e a Taça Libertadores, os críticos terão 'dar a mão a palmatória'.

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