Opinião

16-02-2016 21:06

Euro Futsal: Surpresas, desilusões...e no final? Ganham os do costume

O cronista do SAPO Desporto faz um balanço do Europeu de fusal.
Foto: SAPO Desporto

Rodrigo Pais de Almeida, cronista do SAPO Desporto.

Por Rodrigo Pais de Almeida sapodesporto@sapo.pt

Acabou o Campeonato Europeu de Futsal de 2016 disputado na Sérvia com uma vitória da Espanha, que garantiu desta forma o seu sétimo título europeu após o interregno de 2014 (vitória da seleção italiana) na modalidade perante uma Rússia que pela terceira vez consecutiva é vencida numa Final da competição.


Hora de balanço de uma prova que teve um acompanhamento no nosso país digno de registo, com audiências e transmissões em horário nobre, com muito público não usual da modalidade a comentar e a falar da competição nos cafés, nos locais de trabalho, em casa com a família e amigos, etc., e que colocou nos dias de hoje um enorme desafio ao Futsal Português: aproveitar esta projeção, entusiasmo e mediatização da modalidade que é histórica e uma enorme conquista da modalidade deste espaço próprio e finalmente vincando a sua própria individualidade.

Assim se saiba aproveitar no desenvolvimento e investimento no Futsal, na promoção da modalidade, no espetáculo que já se percebeu que o público desportivo de Portugal aprecia, e que todas as pessoas ligadas à modalidade consigam dar o que esse mesmo público deseja: o espetáculo do jogo.

Mas vamos ao Euro 2016 em concreto

Organização

Brilhante e com números recorde a todos os níveis. O público sérvio soube receber como poucos, aderiu à modalidade, e as romarias à Arena de Belgrado eram constantes. Encheu por completo em todos os jogos da seleção da casa (como seria de esperar) mas superou as expectativas nos jogos das outras seleções, registando um total de 113.820 espectadores no total dos 20 Jogos disputados. Épico!

Arbitragem

Assistimos a boas arbitragens e a conduções de jogo exemplares ao longo da competição, e este é um fator de registo, bem como a disparidade de nacionalidades presentes no núcleo de árbitros presentes neste Europeu com países com pouca expressão na modalidade representados e com excelente qualidade dos intervenientes. A UEFA decidiu neste Campeonato Europeu “estreitar” o critério na marcação de faltas que vinha sendo alargado até aos limites da agressividade e da disciplina. Compreende-se esta indicação por parte da UEFA pois alguns jogos roçavam o limite que separa da violência, mas o problema mantém-se, a fronteira do contacto que é permitido e o que é punível com as leis do jogo.

Nota muito negativa para as regras disciplinares do Torneio. Não se compreende como nas inúmeras competições Uefeiras o número de cartões amarelos são eliminados na transição da fase de grupos para a fase a eliminar, e nesta competição não se teve essa preocupação. Penalizou algumas seleções e tirou alguns dos melhores executantes dos jogos decisivos empobrecendo os espetáculos.


O Jogo

A evolução do jogo continua e isso é uma nota entusiasmante. A forma e o conteúdo da modalidade têm evoluído ano após ano surpreendendo continuamente os jogadores, treinadores e público da modalidade, e este Campeonato Europeu mostrou novamente que o desenvolvimento do jogo continua.

Por um lado a adaptação de algumas seleções da estratégia do Guarda Redes Volante de forma contínua e desde momentos mais iniciais de jogo. Para os teóricos da modalidade já não é estratégia, é sistema de jogo. Na minha conceção prefiro apelidar de adaptar o jogo aos jogadores que se possui, bem como aos adversários que se tem de defrontar, tornando confrontos que à partida poderiam ser desequilibrados em jogos de elevado equilíbrio no resultado, apesar de empobrecer o espetáculo que o público procura, de ataque, contra ataque, virtuosismo técnico e instabilidade nos resultados.

O empobrecimento do espetáculo, tornando o jogo mais previsível e menos dinâmico, preocupa, mas não me preocupa menos a desculpabilização dos treinadores adversários que preferem apelar à UEFA que mude as regras do que pensar em estratégias alternativas para não deixar o adversário adotar este “sistema” de jogo. A UEFA deve mudar as regras? Talvez. Como? Limitando o uso a determinados períodos de tempo (últimos 5 minutos da partida, por exemplo), ou limitando a ação do Guarda Redes a uma vez em cada ataque no meio campo adversário (apenas ideias...). Quando? Quando for oportuno e houver espaço suficiente entre competições (verão de 2017, fica a minha proposta). E até lá? Preocupem-se os treinadores em estudar os mecanismos necessários para colmatar essa ideia de alguns treinadores (e Cacau, treinador do Kairat Almaty e da seleção do Kazaquistão, tem dado verdadeiras lições) e dentro de campo tentarem suplantar e reduzir os espaços de tempo e de campo de forma a que deixem esse “fait divers” de lado.


Surpresa para os mais desatentos foi também uma alteração nas estatísticas dos momentos de obtenção de golo por parte das equipas, mas que já vinha sendo observável nas melhores ligas europeias. Se era consagrado na modalidade que as transições (em superioridade ou igualdade numérica) ditavam a grande maioria dos golos no jogo, e que as situações estratégicas serviam pontualmente para diferenciar um ou outro confronto entre equipas do mesmo nível, este Campeonato Europeu abalou com essa crença. Muitos e a maioria dos golos foram obtidos de jogo estratégico (pontapés de canto, pontapés de linha lateral e livres diretos com e sem barreira) e de jogo corrido em igualdade numérica sem recurso à transição ofensiva. Este facto mostra o grau de exigência, aprendizagem e afinação que as equipas têm no dia de hoje nos chamados “lances de laboratório”, e igualmente a capacidade de surpreender nesse tipo de jogo e em ataque planeado, sempre com boas coberturas ofensivas, ou seja, atacam a baliza do adversário com equilíbrio, sem se exporem em demasia em termos defensivos em caso de falha de um passe ou de uma boa interceção pelo adversário.

Desilusões

Em primeiro lugar a Itália. Quando um campeão não revalida o título já é tema, quando é eliminado nos Quartos de Final por uma seleção estreante (Cazaquistão) torna-se uma enorme desilusão. Some-se a estes factos ter feito uma fase de grupos imaculada com duas vitórias, dez golos marcados e zero golos sofridos mas a sucumbirem perante uma equipa de quem muito pouco se esperava logo no primeiro jogo a eliminar.

Portugal entrou com legítimas esperanças nesta competição mas ficar pelos quartos de final é pouco para a história e sobretudo para as expectativas (legítimas ou não...) que se criaram. Se ser eliminado pela Espanha já se tornou “normal” ou sina, o confronto poderia e deveria ser evitado e adiado para uma fase posterior, em que para tal chegaria bater a Sérvia, algo de que a seleção nacional se mostrou incapaz.

Surpresas


A medalha de bronze do estreante Cazaquistão é a maior surpresa da prova. Não tanto pela qualidade e perfecionismo tático das equipas orientadas pelo Brasileiro Cacau (e Alécio...) mas pela solidez, rigor, competência e espírito solidário que a equipa demonstrou em campo, com apenas três jogadores oriundos de outras paragens, ao contrário de outras congéneres que usam e abusam desse recurso. Uma meia final com a equipa completa (e que falta fez Higuita) e talvez permitisse a este Cazaquistão um sonho ainda maior.

Não sendo uma surpresa arrebatadora, a Espanha não defraudou as legítimas aspirações que sempre demonstra, e mostrou à Europa do Futsal que mesmo quando está numa fase difícil, com muitas contrariedades, e com dificuldades em formar um grupo com alguns dos melhores jogadores, consegue através do espírito de equipa, da competência técnica dos treinadores e jogadores, e de um rigor tático defensivo (posicionamentos irrepreensíveis e de pressão constante sobre a bola e sobre o espaço) e ofensivo (brilhante na forma como vai jogando até apanhar o adversário vulnerável em algum momento do jogo e consumar o golo) ser superior a todos os adversários. Fez o que distingue os grandes dos bons, começou quanto baste, foi ganhando progressivamente confiança e nível exibicional, e acabou no seu melhor ao bater inapelavelmente a seleção Russa na final por 7 a 3. É assim que se ganham as grandes competições desportivas em desportos coletivos.

O “meu” 5 ideal

Higuita – Podia ser também Paco Sedano, mas Higuita mostrou que um Guarda Redes transcende a sua importância defensiva para o que já pode acrescentar em termos ofensivos.

Douglas Junior – Não foi uma surpresa dado o que já lhe vimos fazer pelo Kairat Almaty, mas Douglas transcendeu-se neste Europeu e foi o dínamo (em conjunto com Leo) da equipa cazaque.

Miguellin – A bota de ouro da prova. Seis golos e quatro assistências provaram aos mais céticos (e até ao próprio selecionador espanhol) que é um jogador sublime, de uma intensidade e uma agressividade positivas, objetivo em todas as ações de jogo, e não sendo elegante como outros, foi o jogador mais perigosos para os adversário neste Europeu pela seleção espanhola.

Rivillos – Ou porque não Kocic? Peric? Droth? Leo? Pola? Romulo? Fortino? Porque Rivillos foi a par de Miguellin bota de ouro (mesmo número de assistências e de golos), porque o ala direito espanhol apareceu nos momentos chave, e porque sendo campeã, a Espanha tinha de estar bem representada no “meu” cinco ideal. Kocic foi brilhante, Peric o jogador com mais assistências, Droth um pivot perigosíssimo e que sai do Europeu com uma bela transferência (para o Kairat Almaty de Cacau), Leo foi o jogador de campo com mais minutos do Europeu, Pola uma grande surpresa pela utilidade no campeão europeu, Romulo o melhor da vice Campeã e Fortino o melhor Pivot deste Europeu.

Ricardinho – O melhor do mundo mostrou o porquê de o ser. Marcou os dois melhores golos deste Europeu, carregou a equipa portuguesa às costas, mas continua a não ganhar em termos coletivos nacionais (em termos de clubes e prémios individuais, já ganhou tudo o que haveria para ganhar). É hoje em dia a bandeira do Futsal não só em Portugal mas no Mundo.

Treinadores: Cacau e Venâncio Lopez, este último pela capacidade e qualidade que dotou a sua equipa num momento muito difícil para a seleção espanhola, unindo um grupo em torno de um desafio: voltar a ser campeão da Europa. E Cacau, pela ousadia tática, pela cumplicidade com a equipa, pela liderança partilhada, e sobretudo por continuar a pensar pela sua própria cabeça provando aos outros que as armas, sendo legais, podem e devem ser utilizadas para ganhar toda e qualquer batalha.

Momentos que ficam na memória

- O golo do século com que Ricardinho brindou a Arena de Belgrado e a forma como o público sérvio se despediu do Mágico português;

- A vénia da equipa do Cazaquistão ao seu treinador depois de derrotada a seleção italiana no maior momento da história do Futsal daquele país;

- O sexto golo da Espanha marcado na final por Miguellin e que acabava com o sonho russo de à 3ª final consecutiva conquistar o título europeu;

- A brilhante vitória do Cazaquistão ao maniatar por completo o campeão em título, mostrando superioridade em todos os momentos do jogo e em todas as fase do mesmo;

- A vitória da Espanha por 7 a 3 que dizimou a seleção Russa (empobrecida pela ausência de Eder Lima) e que permitiu a conquista do sétimo titulo Europeu.

Portugal

As expectativas criadas por todos eram elevadas, talvez demasiado elevadas. Mas quem não acredita, mais vale desistir e nem entrar em competição, e disso ninguém pode acusar os comandados de Jorge Braz.

O selecionador nacional fez uma análise lúcida e perfeita - “os jogadores quiseram muito, mas não quiseram bem...” - e foi isto mesmo que se passou. A preparação foi bem elaborada, o grupo é solidário, unido e tem compromisso com o processo de treino e de jogo idealizados. Entraram em campo dispostos a tudo, mas a vontade superou em todos os momentos a capacidade coletiva. E isso em alta competição acaba sempre por pagar-se caro. Em termos individuais, o brilhantismo conseguido por Ricardinho e a sua capacidade para colocar a equipa em jogo mesmo quando esta parecia desaparecer não chegou e apenas ante a Eslovénia a seleção portuguesa conseguiu vencer. O jogo com a Sérvia, com uma segunda parte com erros muito mais individuais do que coletivos (este o grande problema desta seleção na competição) ditou um confronto precoce ante a eventual campeã Espanha, que mostrou um Portugal incapaz de lutar pela vitória.

Não há muito tempo para reflexões. Há que pensar o que se pode melhorar já, a curto prazo, nas próximas semanas, pois está à porta uma qualificação difícil para o Mundial ante a Sérvia e que é essencial ao caminho que o Futsal está a percorrer no nosso país. Com esse apuramento garantido há que ponderar os objetivos realistas que a 7ª melhor seleção do mundo (no ranking FIFA) pode ter e quais os jogadores que melhor podem servir essa equipa.

Só após o Mundial será altura para balanços e desafios para um novo ciclo nas seleções, e creio que a equipa técnica encabeçada por Jorge Braz continua a ser a melhor e mais capaz para conferir estes desígnios: (i) a qualificação para o Mundial 2016 da Colômbia; (ii) disputar o mesmo com resultados positivos; (iii) definir um enquadramento de renovação que já está em marcha (ainda que se peça com maior ritmo e uma aposta mais efetiva) para dois anos fundamentais até à próxima competição, o Europeu de 2018 na Eslovénia.

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