Opinião

10-02-2016 13:24

As palestras do treinador: da "tática falada" à "tática treinada"

O Professor de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana reflete sobre as melhores estratégias comunicacionais dos treinadores, baseado num estudo recente que analisou as Palestras do atual selecionador nacional sub-21, Rui Jorge.
Rui Jorge
Foto: FPF/Hernâni Pereira

Rui Jorge, selecionador nacional de sub-21

Por Ricardo Duarte sapodesporto@sapo.pt

No espaço reservado de cada equipa de Futebol, a palestra do treinador antes do jogo constitui-se como um dos mais importantes rituais da sua preparação para o jogo. Longe vão os tempos em que a palestra era o momento central na preparação tática das equipas. Claro está, falamos dum tempo em que a “tática falada” predominava sobre a “tática treinada”, que é o paradigma atual. Nesse tempo, na semana de trabalho cabiam essencialmente exercícios de preparação técnica e física, restringindo-se a preparação tática da equipa ao espaço confinado ao balneário, no período pré-jogo. A palestra pré-jogo era usada para transmitir aos jogadores o modo como estes deveriam jogar. E o meio fundamental era a palavra. Parafraseando o professor Monge da Silva, um dos maiores especialistas portugueses em metodologia do treino do séc. XX, “a evolução do treino, no Futebol, deu-se na mudança da tática falada para a tática treinada.”

Qual será então o papel atual que as palestras ocupam na preparação das equipas? Serão ainda o momento-chave no qual os treinadores veiculam as suas ideias para o jogo? E qual será o seu conteúdo-alvo? Num trabalho desenvolvido por Alexandre Silva, treinador nacional adjunto dos sub-21, que foi defendido recentemente como tese de mestrado em Psicologia do Desporto, na Faculdade de Motricidade Humana, encontramos a resposta a algumas destas questões. Esse trabalho, que contou também com a orientação e colaboração do Professor Doutor António Rosado, analisou o conteúdo das palestras pré-jogo, ao intervalo e pós-jogo do selecionador nacional sub-21, Rui Jorge. Foram analisadas um total de 27 palestras. Pese embora as particularidades do contexto analisado (contexto de seleção), os resultados foram bem interessantes. Senão, repare-se:

1. Para começar, é interessante referir que, contrariamente a outros treinadores, Rui Jorge utiliza sempre o momento pós-jogo para comunicar formalmente com os seus jogadores. Muitos defendem que este não é o momento adequado. Argumenta-se que existem excessivas emoções presentes, fruto do desfecho dos jogos acabados de vivenciar e, por tal, muitos preferem não o fazer. Apesar disto, este treinador assume a palestra pós-jogo como um dos momentos formais de comunicação com os seus jogadores. Demonstrativo do controlo emocional que coloca a si mesmo e a quem consigo trabalha.

2. A duração das palestras foi diferente em cada um dos contextos analisados. As palestras pré-jogo tiveram uma duração média de 14 minutos, nas quais se transmitiram 185 unidades de informação. As palestras ao intervalo duraram, em média, 5 minutos, implicando 87 unidades de informação. No pós-jogo, tiveram uma duração média de 2 minutos e meio, com a transmissão de cerca de 41 unidades de informação. De destacar que apenas as palestras ao intervalo estão limitadas pelas regras do jogo (duração máxima de 15 minutos).

3. A utilização de meios audiovisuais foi uma constante nas palestras pré-jogo, ligando o conteúdo do discurso a imagens vídeo sobre o adversário e a própria equipa, e em alguns casos ligando, inclusivamente, o discurso do treinador ao conteúdo dos exercícios de treino trabalhados nas sessões de preparação para o jogo. Longe vão os tempos da “tática falada”. Hoje, ela é essencialmente treinada. E o treinador liga o conteúdo da sua palestra a esse trabalho efetuado no campo. Ao intervalo, os recursos audiovisuais foram raros, sendo muitas vezes substituídos pelo habitual quadro tático, com marcas e marcadores. No pós-jogo não se verificou a utilização de recursos audiovisuais, pois o conteúdo dominante não necessitava disso.

4. Nas palestras pré-jogo e ao intervalo, a maior parte das mensagens transmitidas pelo treinador versaram os aspetos táticos, nomeadamente relativos ao modelo de jogo da seleção. Contudo, no pré-jogo o conteúdo da informação dirigiu-se essencialmente para as situações de bola parada ofensivas e defensivas, enquanto ao intervalo foi dada primazia a informação sobre a organização ofensiva da própria equipa. Relembre-se que a investigação analisou os 9 jogos de apuramento para o Europeu Sub-21, disputada no ano passado na República Checa. O ênfase dado ao intervalo sobre a organização ofensiva da equipa revela, também, a supremacia que Portugal teve na maior parte dos jogos e as necessidades do treinador exponenciar essa fase do jogo.

5. Nas palestras pós-jogo, o conteúdo transmitido relacionou-se mais com a gestão dos efeitos decorrentes do jogo, essencialmente ao nível das implicações do resultado no percurso do apuramento e consequentes processos de preparação.

6. A menção às caraterísticas da equipa adversária teve uma reduzida incidência. No pré-jogo ocupou cerca de 15% do conteúdo da palestra, reduzindo para 9% ao intervalo e apenas 1% no pós-jogo.

7. A informação foi dirigida maioritariamente a toda a equipa nos 3 tipos de palestras. Contudo, ao intervalo houve um aumento da informação dada individualmente a cada jogador, que ocupou cerca de 39% de toda a palestra.

8. A ênfase em mensagens de encorajamento e pressão sobre os jogadores rondou valores quase insignificantes no pré e pós-jogo (1% e 2%, respetivamente), tendo subido ligeiramente ao intervalo (14%). Por outro lado, Rui Jorge optou por utilizar uma combinação de informação de caráter descritivo, onde os jogadores são auxiliados a antecipar e/ou diagnosticar os acontecimentos do jogo, com informação prescritiva, onde o treinador auxilia os jogadores a convergirem para soluções concretas a implementar no jogo. Estes resultados demonstram que o foco deste treinador é, acima de tudo, auxiliar os jogadores a desenvolverem as suas capacidades de perceção, análise e entendimento do jogo, com uma ligação consequente à exploração das soluções individuais e coletivas mais adequadas a cada problema que o jogo lhes coloca. Uma estratégia de comunicação que claramente se diferencia de uma intervenção mais focada nos aspetos motivacionais e emocionais, que muitos treinadores usam ainda, tornando-se muitas vezes na presa da sua própria estratégia comunicacional.

O trabalho completo estará em breve online, na biblioteca da Faculdade de Motricidade Humana. Ficam as principais caraterísticas da comunicação antes, durante e após o jogo, de um dos mais respeitados e competentes treinadores Portugueses da atualidade. Uma referência para muitos. Referência também pela abertura da porta do seu balneário à investigação. Sem dúvida, um exemplo de abertura num mundo profissional que continua, em muitos casos, de trancas à porta.

Opinião