Opinião

08-10-2015 10:30

Ser Treinador em tempos de crise: as lições de José Mourinho

O Professor de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana reflete em torno das aprendizagens extraídas da análise ao comportamento de José Mourinho nos tempos de crise vividos atualmente pelo Chelsea.
Ricardo Duarte
Foto: DR

O novo cronista do SAPO Desporto

Por Ricardo Duarte sapodesporto@sapo.pt

Ser Treinador de Futebol está na moda. Querer Ser Treinador é, hoje, a ambição de muita gente. De gente jovem e de gente mais experiente. Há alguns anos era diferente. Ser Treinador de Futebol tinha outra conotação. E menor valorização. Mas o paradigma mudou. Hoje são muitos mais os que procuram triunfar nesta profissão.

A concorrência é feroz. Nem sempre justa, mas faz-nos evoluir coletivamente. Mas há treinadores e treinadores... E por cá, habituamo-nos a aprender com o melhor de todos. O melhor de todos os espécimes, o tal que mudou o paradigma do Ser Treinador. Em Portugal e no mundo. Hoje, passa pelo pior pesadelo da sua carreira desportiva. Apesar do momento, não deixa nunca de nos ensinar. E só não aprende com ele quem a isso não se dispõe. Foram 3 golos sofridos e apenas um marcado.

Novo desaire caseiro. Acentua-se a depressão coletiva. E seguiram-se 7 longos e intensos minutos de flash interview.

E aqui começa a nova lição. Por entre alguns adereços no discurso, fica clara uma estrutura e intencionalidade neste momento de comunicação. Para o exterior, mas visando o interior. Fica o que retirei, pessoalmente, desta lição:


1 – assumir a responsabilidade máxima pelo mau momento da equipa;
2 – desvanecer a importância das más performances dos últimos 2 jogos, enfatizando a importância das decisões dos árbitros para os maus resultados conseguidos pela equipa;
3 – colocar-se ao lado dos adeptos e dos jogadores, colocando o clube no papel de vítima das más decisões dos árbitros e da comissão disciplinar, que não permitem à equipa sair do mau momento;
4 – redefinir objetivos para a época, centrando a atenção em ficar no top 4 na liga;
5 - pedir que todos reflitam e assumam as suas responsabilidades individuais dentro do clube, que lutem em conjunto para inverter o mau momento, mudando o paradigma tradicional de atribuição de culpas a um só elemento, o Treinador;
6 – criar um foco atencional nos jogadores, abordando as sensações de libertação e as emoções positivas que os jogadores experienciarão quando estiverem a ganhar por 2 ou 3 golos;
7 – voltar a atenuar as responsabilidades do grupo face às más decisões dos árbitros, desvanecendo novamente a responsabilidade dos jogadores/treinador.

E se de repente, quando ninguém espera, tudo à nossa volta se desmoronasse? Como reagiria cada um de nós num contexto tão adverso como este?

Mourinho, mesmo sob pressão, não perde tempo com o que não interessa. Opta por se focar essencialmente naquilo que pode fazer. Desafia os jogadores. Redefine objetivos para a época. Ficar em quarto. Aparentemente acessível. Baixa, aparentemente, o nível de exigência aos seus jogadores.

Apesar do momento, eles são ainda os campeões. Sabem que são competentes o suficiente para o 4º lugar. Isto cria foco. Faz os jogadores e o staff direcionarem as suas energias para o que podem ainda construir. Para o que podem fazer e não para o que já não podem evitar. Mas sabem quantas equipas da Premier League com 8 pontos nas primeiras 8 jornadas acabaram no top 4? Nenhuma. Sim, o melhor que se viu foi um 5º lugar. Aparentemente acessíveis, mas simultaneamente desafiantes. É assim que os objetivos têm de ser! A lição parece estudada. Não parece surgir por acaso. Faz certamente parte do trabalho de antecipação de cenários do treinador. E que sabe que tem 14 dias para voltar a fazer a sua gente acreditar.

É por isso que, como disse no início, há treinadores e treinadores... Independentemente do que acontecer nos próximos tempos, continuaremos a dizer que há treinadores de Futebol, há muito bons treinadores de Futebol, e há José Mourinho!

É por isso que o melhor de todos os treinadores é uma referência, também hoje, na formação de treinadores. O seu percurso inspira, hoje, jovens, e menos jovens, treinadores pelo mundo fora. Em Janeiro próximo arranca uma pós-graduação internacional em Treino de Futebol de Alto Rendimento, organizada pela Faculdade de Motricidade Humana. O coordenador é José Mourinho. Será também professor. Ele e outros nomes de relevo. Um dos módulos, claro está, será Liderança e Comunicação.

Alguns países olham hoje para Portugal como um viveiro de treinadores. Alguns vêm mesmo aprender connosco. Aqui está um exemplo de empreendedorismo e de exportação de um produto bem nacional, a designada Escola Portuguesa de Treinadores de Futebol.

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