Opinião

28-02-2015 12:15

Os treinadores por trás do ´clássico`

O professor universitário da Faculdade de Motricidade Humana reflete sobre a quase ausência de aposta em estrangeiros para o cargo de treinador.
Os treinadores por trás do ´clássico`

Por Ricardo Duarte sapodesporto@sapo.pt

O clássico deste fim-de-semana terá como protagonistas duas equipas lideradas por dois treinadores que, apesar de todas as suas diferenças, vêm demonstrando elevada qualidade para o desempenho da função. Mas já reparou que Lopetegui é mesmo o único treinador estrangeiro da Liga NOS?

Sim, o panorama hoje é extremamente favorável aos treinadores portugueses. Mas nem sempre foi assim. Especialmente nos designados ‘clubes grandes’, a dificuldade em apostar em treinadores portugueses perdurou durante muitos anos. Um “complexo” que parece hoje estar ultrapassado, com as sucessivas gerações de treinadores que ano após ano vão tendo a sua oportunidade nas ligas profissionais.

A que se deve esta inversão e atual domínio dos treinadores portugueses?

Durante a década de 80, Portugal operou uma revolução na sua formação de treinadores, pioneira no mundo. Em plena articulação com o novo conhecimento universitário, Carlos Queiroz, na altura professor de Futebol do ISEF (atual Faculdade de Motricidade Humana), liderou uma equipa de trabalho que sistematizou o conhecimento existente sobre o treino e sobre o jogo, criando a estrutura base do conhecimento técnico que passou a ser transmitido aos novos treinadores. Repare-se que, ainda hoje, cerca de 30 anos depois, muito deste conhecimento constitui ainda o conteúdo de base para os cursos de treinadores. Obviamente que este sistema de formação evoluiu muito ao longo do tempo, tendo vindo esta matriz teórico-prática a atualizar-se sucessivamente, fruto das diferentes gerações de treinadores, formadores e pesquisadores. Bem recentemente entrou também em vigor legislação específica que regulamenta a formação de treinadores, que promete elevar ainda mais o nível de exigência no acesso à profissão e o correspondente processo de formação dos treinadores. Mas repare-se que, Portugal é hoje uma caso singular de sucesso no âmbito da formação de treinadores na Europa e no Mundo. Por exemplo, é o único país da Europa com um duplo sistema de formação, devidamente articulado, que mistura a formação via associativa/federativa, com a formação via académica. Aliás, estou convencido que esta mistura entre academia e prática muito contribuiu para estarmos hoje na vanguarda da formação de treinadores de futebol.

Como nos podemos comparar a este nível com os países Europeus de referência?

Fruto do processo de formação anteriormente descrito, a tendência nos últimos anos foi de um aumento percentual do número de treinadores portugueses nas equipas das nossas ligas profissionais. Por exemplo, em Janeiro do ano passado, quando comparado com os países futebolisticamente mais expressivos no panorama Europeu, Portugal era o país com menor número de treinadores estrangeiros: Inglaterra (11 nacionais e 9 estrangeiros); Espanha (14 nacionais e 6 estrangeiros); França (17 nacionais e 3 estrangeiros); Itália (17 nacionais e 3 estrangeiros); Alemanha (13 nacionais e 7 estrangeiros); Holanda (16 nacionais e 2 estrangeiros); Portugal (15 nacionais e 1 estrangeiro). Se em vários outros aspetos do nosso dia-a-dia nos podemos queixar da falta de proteção ao produto ‘made in Portugal’, neste caso particular aparentemente isto não acontece. Mas não será esta hegemonia portuguesa nas nossas ligas simplesmente a expressão da lei da oferta e da procura? É que o número de treinadores em Portugal tem crescido e, do que se sabe, o salário dos treinadores tem estagnado e mesmo diminuído em muitos casos. No ‘estado de sítio’ e de sufoco financeiro com que os nossos clubes vivem, o Futebol Português não parece ser um mercado atrativo para os treinadores estrangeiros.

Como é visto o treinador português lá fora?

Independentemente dos sucessos de uns e insucessos de outros, o que é certo é que o número de treinadores portugueses no estrangeiro tem aumento exponencialmente. No Fórum do Treinador, organizado em 2014 pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol, foram divulgados registos de 173 treinadores a atuar no estrangeiro. Mas tendo em conta que muitos dos que decidem emigrar não são associados da ANTF, muitos mais existirão e terão escapado a este registo.

A admiração pelos treinadores lusos não é de agora. Desde os feitos sucessivos de Carlos Queiroz e companhia em Riade 89 e Lisboa 91 que essa empatia parece ter começado. Mas foi muito provavelmente o grande sucesso desportivo de José Mourinho que abriu definitivamente as portas do mercado internacional aos treinadores portugueses.

Este “Efeito Mourinho” parece ter criado uma verdadeira mudança de paradigma na valorização do papel do treinador, inclusive à escala financeira. Repare-se que a transferência de José Mourinho para o Chelsea foi a mais cara transferência de sempre de um treinador. E desde então, muitos treinadores passaram a ser procurados e representados por agentes FIFA, algo que anteriormente era raro. Toda a projeção mediática dos sucessivos sucessos de Mourinho parecem ter ajudado à afirmação definitiva do treinador luso fora de portas, que a cada oportunidade foi dando provas da sua competência e capacidade. Este ‘boom’ de imigração de treinadores de futebol atingiu um ponto alto quando 11 treinadores principais portugueses lideravam equipas presentes na fase de grupos da Liga dos Campeões e Liga Europa, na época 2012/13. E não foi um acontecimento esporádico, pois na época seguinte eram 8 os treinadores portugueses nestas competições.

Mas a imigração no Futebol, nos dias que correm, não é apenas fruto do reconhecimento internacional que o treinador luso possui. Novas gerações de treinadores parecem hoje seguir a tendência imigratória de outras profissões e partem à procura das suas oportunidades de sucesso e realização profissional. Repare-se por exemplo a recente vaga de imigração de jovens treinadores para a China, num projeto de expansão da Academia Figo que já conta com 8 pólos em território Chinês e se prepara para reforçar o contingente português de treinadores.

Voltando aos treinadores em destaque este fim-de-semana, Lopetegui é claramente um representante do melhor que o Futebol espanhol tem para dar. E é claro que o Futebol atrativo e ‘bem jogado’ que defende sofre influências do melhor que em Espanha se viu nas últimas décadas, a escola do Barcelona. Por seu lado, Marco Silva, um jovem treinador apenas na sua quarta época como treinador, sofre influências de uma ‘escola’ portuguesa de treinadores que prepara o jogo detalhadamente no plano estratégico-tático, sem nunca descurar os princípios que conferem identidade à sua equipa. Falta saber quem triunfará este Domingo...



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