Dérbi da formação

07-02-2015 18:06

O Dérbi da Formação: É aqui que se joga o futuro do Sporting x Benfica?

Um pretexto para refletir sobre a liderança na formação de jogadores em Portugal.
O Dérbi da Formação: É aqui que se joga o futuro do Sporting x Benfica?

Por Ricardo Duarte sapodesporto@sapo.pt

Em fim-de-semana de Sporting-Benfica, olhamos para a formação de jogadores dos dois clubes. Muito se tem falado ultimamente sobre qual dos clubes possui a melhor formação de jogadores e sobre o modo como esses talentos têm sido aproveitados pelos treinadores principais dos seus clubes.

Longe vai o tempo em que Sporting era líder isolado na formação de jogadores em Portugal. Recuando, facilmente recordámos que foi o Sporting o primeiro dos clubes portugueses a investir seriamente em recursos humanos e infraestruturas para o desenvolvimento dos seus talentos, através da criação da Academia de Alcochete. Na época, esta foi uma iniciativa inovadora no país, que potenciou ainda mais a já famosa tradição do Sporting na formação de jogadores.

Note-se, por exemplo, que jogadores como Futre, Figo e muitos outros despontaram para o Futebol, no Sporting, ainda antes da Academia de Alcochete. Mas com as novas infraestruturas e recursos humanos, as condições de trabalho melhoraram, e o projeto de formação de jogadores do Sporting gerou jogadores de elite mundial e atingiu elevados patamares de reconhecimento internacional. Pese embora a importância que a Academia teve neste processo, um outro pilar fundamental no sucesso da formação do clube de Alvalade sempre foi o bom sistema de prospeção e recrutamento dos jogadores. Neste aspeto, o Sporting foi também pioneiro, sendo o primeiro dos 3 grandes a montar uma rede de observação de jogadores por todo o país, muito bem liderado e coordenado a partir de Alcochete.

Atentos a esta liderança dos leões, os rivais do Sporting logo se apressaram a organizar-se neste mesmo sentido. O sistema de prospeção e recrutamento de jogadores, quer do FC Porto, quer do Benfica também se organizou, tornou mais agressivo, e passou a fazer séria concorrência ao Sporting. E com a criação do Caixa Futebol Campus, no Seixal, o Benfica ficou em situação de igualdade para discutir com o Sporting um outro título – o de melhor clube formador.

O Centro de Formação do Seixal permitiu ao Benfica organizar a sua formação como nunca antes havia tido condições. À imagem de Alcochete e de outras Academias estrangeiras, as estruturas de apoio multiplicaram-se. O sistema de prospeção e recrutamento refinou-se. E o trabalho dos treinadores pode avançar para um outro nível. Apesar da importância do resultado ser um indicador bastante questionável para aferir a qualidade dos processos de formação, o que é certo é que os resultados alcançados pelas equipas de formação do Benfica nos últimos anos parecem seguir uma tendência oposta à do Sporting. Enquanto o Benfica aparenta estar a crescer e estabilizar-se nos primeiros lugares da classificação dos campeonatos nacionais de Iniciados, Juvenis e Juniores, o Sporting parece seguir uma tendência oposta.

Os dados que recolhemos sobre o número de pontos alcançados por Benfica e Sporting, nas fases de apuramento de campeão, das últimas 8 épocas, mostram que nos escalões de Juniores e Iniciados, o Benfica apresenta uma tendência de crescimento superior à do Sporting. O número total de pontos em disputa também cresceu, devido a alterações no quadro competitivo.

Quanto ao escalão de Juvenis, ambas as equipas apresentam uma tendência de decréscimo, embora o decréscimo do Benfica seja menor que o do Sporting. Os dados que analisámos excluem os resultados da presente temporada, na qual a equipa do Sporting não se conseguiu apurar e não marcará presença na fase final de Juvenis.

A média pontual obtida pelos 2 clubes nos 3 escalões ao longo das últimas 8 épocas, revela que a tendência de crescimento do Benfica é mais acentuada, tendo mesmo atingido maior número de pontos que o Sporting nas épocas 2011/2012 e 2012/2013, embora na última época esta diferença se tenha anulado.

É comumente aceite que os objetivos das equipas de formação deverão estar muito para além do resultado. Deste modo, reforço a necessidade de interpretar estes dados e indicadores com muito cuidado. Contudo, eles não deixam de expressar a capacidade competitiva das equipas de formação dos 2 rivais de Lisboa. E facilmente se percebe que as equipas mais competitivas tendem frequentemente a reunir as melhores condições para que os potenciais talentos futebolísticos se possam desenvolver e consolidar até à fase de transição para o futebol profissional. E nesta fase outras questões se colocam.

A deseja integração destes talentos na equipas principais dos 2 clubes tem acontecido de forma extremamente oposta. Enquanto em Alvalade a tradição de integração de jogadores jovens na equipa profissional facilita essa transição, já no clube da Luz o mesmo não se passa. Contudo, apesar deste aproveitamento desportivo dos talentos formados no clube tardar em aparecer na equipa principal do Benfica, este investimento na formação tem, nos últimos tempos, começado a ser rentável sob o ponto de vista financeiro. A venda de alguns dos seus jogadores mais talentosos, como André Gomes e Bernardo Silva, são um indicador disso mesmo.

A questão que impera colocar-se é, quais as razões para o Sporting estar aparentemente a perder a liderança no processo de formação de jogadores? Haverá alguma relação com as sucessivas mudanças diretivas do clube nos últimos anos? Terá isto afetado a solidez da visão formativa do próprio clube?

E no Benfica, para quando o aproveitamento desportivo dos jogadores mais talentosos da sua formação que os adeptos parecem começar a reclamar para a equipa principal? Quando conseguirão estes jogadores impor-se definitivamente dentro do próprio clube? Será o Benfica capaz de manter a boa dinâmica formativa no futuro, caso não mude a sua política de integração de jogadores na equipa principal? O que poderá o Sporting ganhar com isso?

Os próximos anos irão, por certo, trazer-nos a resposta a estas e outras importantes questões.

Opinião