Opinião

20-01-2015 13:15

O futuro do futebolista made in Portugal exige visão estratégica

O professor da Faculdade de Motricidade Humana e novo cronista do SAPO Desporto analisa o futuro do futebolista português em plena era da globalização.
O futuro do futebolista made in Portugal exige visão estratégica

Por Ricardo Duarte sapodesporto@sapo.pt

Neste início de novo ano, temos por hábito formular desejos e projetar novas conquistas. Para quem se preocupa com o desenvolvimento sustentado do Futebol Português, esta pode ser uma altura propícia à reflexão, não só acerca das conquistas de curto prazo, mas essencialmente acerca da ‘marca nacional’ que queremos coletivamente projetar e construir no futuro.

A este respeito, um dos aspetos que mais me preocupa é o futuro do Jogador Português. Sem preservarmos o futuro do Jogador Português, dificilmente construiremos uma ‘marca nacional’ consistente e de qualidade. Hoje, temos Ronaldo novamente consagrado como o melhor jogador do planeta. No passado tivemos outros. Mas quem teremos no futuro? E o que podemos fazer para salvaguardar que outros “Figos”, “Ronaldos” e companhia aparecerão no futuro? E o que andam outros países a fazer a esse respeito?

Comecemos por olhar o panorama atual. Se olharmos para a nossa 1ª Liga Portuguesa, apenas 39% dos jogadores mais utilizados são de nacionalidade Portuguesa. Dos 61% de jogadores estrangeiros, os jogadores Sul Americanos representavam praticamente a mesma proporção dos nacionais (37%). Terá o Jogador Português menor qualidade que o estrangeiro? A nossa intuição é que, na maior parte dos casos, não. Prova disso são os excelentes resultados conseguidos pelas nossas Seleções Jovens nos últimos 20 anos. Repare-se que desde 1991, as várias Seleções Jovens portuguesas, dos sub-17 aos sub-21, participaram em 40 fases finais de Europeus e Mundiais. Nas 40 fases finais, Portugal conseguiu terminar por 17 vezes entre os três primeiros classificados e atingiu mesmo o primeiro lugar em seis competições. A qualidade do jovem Jogador Português parece inquestionável.

Contudo, a sua integração no Futebol Profissional continua a ser pouco profícua. Por exemplo, da equipa Portuguesa que venceu o Europeu de sub-17 em 2003, disputado em Viseu, apenas cinco jogadores chegaram à Seleção A, e na verdade apenas dois têm sido utilizados com regularidade: João Moutinho (71 jogos), Miguel Veloso (52), Vieirinha (10), Paulo Machado (6) e Hélder Barbosa (1).

A que se deve então esta dificuldade de transição para o Futebol Profissional? Porque parecem ser dadas menos oportunidades ao Jogador Português? No nosso entender existem 3 razões que estão na base deste fenómeno.

1. Competitividade financeira do mercado Sul Americano.
A valorização do Euro, face à maioria das moedas dos países da América do Sul, coloca, naturalmente, os jogadores provenientes desse continente em vantagem na hora da contratação. Na luta pela sobrevivência financeira de curto prazo, os clubes acabam por recorrer frequentemente às soluções menos dispendiosas na constituição dos seus planteis.


2. Gestão imediatista dos clubes portugueses.
Salvo raras exceções, a maioria dos clubes profissionais da 1ª e 2ª Liga assentam a sua gestão na resolução dos problemas de curto prazo, e vivem com constrangimentos financeiros muito grandes. São raros os casos de clubes com visão e planeamento estratégico que vá para além da necessidade de pagar as contas e salários no final do mês. Não abundam os casos de clubes que apostem estrategicamente na implementação de Modelos ou Programas de Formação Futebolística dos seus jogadores. É necessário visão para fazer diferente. A competência técnica existe, mas sem estruturas diretivas capazes de pensar e projetar a longo prazo, dificilmente defenderemos o Jogador Português. A este respeito, parece-me interessante destacar o exemplo do Vitória de Guimarães, que, de há uns anos a esta parte, parece ter adotado uma estratégia de gestão diferenciada dos restantes clubes.


3. Falta de um plano estratégico nacional.
O Futebol Português carece de um plano estratégico que o projete de forma competitiva no futuro. As estratégias de promoção e desenvolvimento do Jogador Português deveriam ser um dos pilares deste plano. Todos sabemos que Portugal é um país pouco habituado a planos estratégicos nacionais, que consigam mobilizar as pessoas para uma causa comum. Mas vejamos os exemplos de outros países. Por exemplo, desde 2001 que a Holanda tem um plano nacional de formação de jogadores assente em ideias e princípios orientadores comuns. Desenhado inicialmente por Louis Van Gaal, este plano procurou potenciar a formação contínua dos treinadores e jogadores, monitorizada de perto por 20 “Coordenadores de Região”, com o objetivo de manter a Holanda no top 10 mundial.

A Alemanha, atual campeã do mundo, implementou um plano a longo prazo de reestruturação do Futebol Alemão, após os sucessivos desaires internacionais que culminaram com o afastamento do Euro 2000, imposto pelos 3 golos infligidos por Sérgio Conceição no Portugal x Alemanha. Este plano centrou-se na Formação de novas gerações de jogadores e implicou a adoção de 3 medidas muito concretas. Primeiro, a própria Federação criou 366 centros regionais de formação para jovens jogadores dos 11 aos 15 anos, enquadrados por 1300 treinadores em part-time e 29 coordenadores responsáveis por processos de acompanhamento e recrutamento de jogadores, o que resultou numa pool de 14000 jovens talentos (só dos 11-15 anos). A segunda medida foi obrigar os 36 clubes alemães da 1ª e 2ª ligas a criar Academias de Formação profissional para os seus jogadores. Com estas academias, os clubes tiveram de investir uma boa parte do seu orçamento em infraestruturas, treinadores e outros profissionais das ciências do desporto, dedicados a full-time ao desenvolvimento dos jovens jogadores acima dos 15 anos. Estas academias foram rigorosamente avaliadas e passaram por um processo de certificação da Federação Alemã. As avaliações decorrem de 3 em 3 anos, e a sua aprovação é indispensável para a participação dos clubes nas competições profissionais da Bundesliga. Fruto deste processo de certificação, em 2006, a Federação Alemã criou ainda 35 Escolas de Elite no país, uma espécie de Escolas com ensino articulado, à imagem do que se faz em Portugal na área das artes, música e dança, e que permitiu dar um ênfase particular à coordenação dos estudos com um grande investimento no treino de Futebol.

Em Portugal, à falta de imposição de medidas desta natureza, alguns clubes têm-se organizado internamente. Há alguns sinais positivos. A nova vaga das equipas B ‘promete’ ajudar à transição do Jogador Português para o Futebol profissional, criando mais oportunidades para que os jovens possam competir. A qualidade dos processos de formação de alguns clubes e das seleções nacionais também melhorou nos últimos anos. E a Federação começa a ficar desperta para a necessidade de intervir a este respeito. A ‘Casa das Seleções’ já arrancou no vale do Jamor e promete ser um elemento importante neste processo. Recentemente foi também constituído um grupo de trabalho para estudar matérias ligadas à certificação da formação dos clubes e academias, assim como à reformulação das competições. Está na hora de, coletivamente, atuarmos. Só com medidas concertadas e articuladas em torno de um projeto de valorização do ‘Jogador Português’ estaremos em condições de manter a atual projeção do ‘Futebol Português’ no panorama internacional.

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